· Diogo Silva
Escassez de trabalhadores qualificados
Natalidade em quebra, um sistema de ensino desalinhado com a procura real, e uma cultura que tornou o risco de empreender menos atractivo.
É hoje um problema recorrente, sobretudo nas profissões livres: construção, canalização, electricidade, pintura, operação de máquinas. Praticamente todas as semanas ouço a mesma frase, não há ninguém para trabalhar, e vale a pena tentar perceber, com mais calma do que costumamos ter nestas conversas, o que está por trás disso.
A primeira causa é demográfica. Portugal tem uma natalidade em quebra continuada há décadas. Sem entrar em números que precisaria de confirmar com rigor, o essencial é simples: se cada geração produz sistematicamente menos filhos do que os necessários para se substituir a si própria, mais cedo ou mais tarde há menos pessoas em idade activa, e menos ainda com anos de prática num ofício que exige tempo para se aprender bem. Um bom electricista ou um bom canalizador não se forma em poucos meses. Formar um artesão é um investimento de anos, e um país sem gente nova para formar acaba, inevitavelmente, sem artesãos.
Há também, e isto é mais uma leitura pessoal do que um facto estabelecido, uma certa relutância em apresentar estes números com toda a sua gravidade. Seja como for, a matemática de fundo não muda consoante a forma como se conta: sem reposição geracional, não há mão de obra qualificada daqui a uma geração, seja ela qual for.
A segunda causa tem menos a ver com números e mais com aquilo que passámos a valorizar. Ao longo das últimas décadas criou-se a ideia de que um curso universitário é condição quase obrigatória para ser alguém na vida, e isso empurrou toda uma geração para cursos que, sendo honesto, pouco lhe interessam e pouco lhe servem, só para ter o canudo. O problema não é a universidade em si, há cursos e pessoas para quem ela faz todo o sentido, é o facto de se ter tornado um destino por defeito, independentemente da vocação, do talento ou da procura real de mercado para essa formação. Isso tem um custo real: menos jovens a aprender ofícios onde há falta de gente, e mais jovens formados em áreas onde a procura é escassa e a experiência prática, no fim do curso, continua próxima de zero.
A terceira causa é mais difícil de dizer sem soar acusador, mas arriscaria assim: é confortável ter um patrão, um horário, um ordenado certo ao fim do mês, e evitar a exposição ao risco de abrir um negócio próprio. Isso é perfeitamente compreensível, sobretudo quando a carga fiscal e a burocracia tornam ser empresário em Portugal mais difícil do que precisava de ser. Mas esse conforto tem um preço colectivo: um país que produz cada vez menos e importa cada vez mais, cujo capital não fica retido internamente, e que depende de investimento estrangeiro mesmo nos sectores onde deveria ter mais autonomia. Há vantagens claras em atrair investimento e empresas estrangeiras, sobretudo em serviços. É mais discutível quando isso substitui, em vez de complementar, a produção própria nos sectores mais básicos.
Haverá seguramente outras causas a somar a estas três, mas parecem-me as mais relevantes: natalidade em quebra, um sistema educativo desalinhado com a procura real de trabalho qualificado, e uma cultura que tornou o risco de empreender menos atractivo do que devia ser.
Para quem tem entre 15 e 25 anos e quer ganhar bem, ser dono do seu próprio destino e manter uma boa qualidade de vida, o conselho que daria é simples:
- Aprender uma profissão livre, seja em construção, electricidade, canalização, jardinagem ou agricultura, e especializar-se dentro dela.
- Não assumir que a universidade é o único caminho válido. Pode ser o caminho certo para algumas pessoas e cursos. Vale a pena escolher com mais critério do que hábito.
- Procurar um mentor, de preferência alguém mais velho com negócio próprio, que ensine o básico de gestão e impostos: como não ter dívidas e como não pagar mais do que é devido.
- Considerar sair das grandes cidades. É um tema que merece mais espaço do que cabe aqui, mas o interior continua a ser onde há mais espaço para construir algo de raiz.